O
QUE É ENTROPIA?
Eduardo
Lütz (*)
(*) Eduardo
Lütz é professor do Instituto de Matemática da
UFRGS, é mestre em Física e está concluindo
sua tese de Ph.D.
Introdução
A palavra 'entropia'
tem sido muito usada em debates, como no caso da controvérsia
Evolucionismo versus Criacionismo. Em tais debates, são
utilizados argumentos que chegam, às vezes, a atribuir à
entropia propriedades que lhe são estranhas.
Nosso objetivo
aqui é o de definir entropia e comentar rapidamente algumas
de suas propriedades.
Antes de podermos
definir entropia, precisaremos tecer algumas considerações
sobre conceitos que serão utilizados na definição.
Os dois conceitos mais importantes neste contexto são o de
microestado e o de macroestado.
Nesta abordagem
(holista), identificamos o estado de um sistema pelos valores
de suas variáveis globais (que descrevem o estado
do sistema como um todo). Um estado do sistema caracterizado somente
por variáveis globais chama-se macroestado
Entropia
e Desordem
A palavra 'entropia'
tem sido associada a desordem. É importante lembrar
que tal associação só é válida
sob certas circunstâncias especiais. Um dos problemas deste
tipo de associação é que ela se dá em
um contexto em que não se utilizam definições
formais e, freqüentemente, utilizam-se extrapolações
sem maiores cuidados (mesmo porque nem sempre é possível
ter-se cuidado quando se abre mão do raciocínio formal,
isto é, matemático).
Entropia
e Probabilidade
Imaginemos que
são vendidos cem milhões de bilhetes de uma determinada
loteria, sendo que só um deles dá direito ao primeiro
prêmio, mil dão direito ao segundo prêmio (de
muito menor valor), dez mil dão direito ao terceiro prêmio
e os demais não dão direito a prêmios.
Ao comprarmos
um bilhete desta loteria, a chance de que ele seja não premiado
é de praticamente cem por cento. A chance de conseguirmos
o terceiro prêmio é tremendamente menor, mas ainda
muito maior do que a chance de obter o segundo prêmio. Podemos
calcular a entropia associada a cada uma destas situações.
Chamemos de
S1 a entropia associada à situação
em que a pessoa obteve o primeiro prêmio, S2 a
entropia associada à compra de um bilhete com o segundo prêmio,
S3 à compra de um bilhete com o terceiro prêmio
e S4 à compra de um bilhete sem prêmio.
Por simplicidade,
vamos fazer de conta que
(o que corresponde
a uma certa escolha de unidades de medida). Assim, a fórmula
da entropia, em nosso sistema de medição, passa a
ser
| S = kB ln(n)
= ln(n) / ln(10) = log 10 (n) = log (n) |
Nestas condições,
|
S1 = log(1) = 0,
S2 = log(1000) = 3,
S3 = log(10000) = 4,
S4 = log(99988999) ~ 7,99995222 ~ 8
|
A entropia cresce
com a probabilidade associada a um estado.
Em sistemas
físicos mais gerais, também ocorre este fenômeno.
Quanto maior o número de microestados correspondentes a um
macroestado, maior será a chance de encontrarmos o sistema
neste macroestado e maior será a entropia associada a ele.
Entropia
Crescente
Esta tendência
que os sistemas físicos possuem de evoluir (mudar de estado
com o tempo) em direção aos estados mais prováveis
corresponde ao que usualmente se conhece por "segunda lei da Termodinâmica".
Em termos bem
simples, podemos dizer que a segunda lei da Termodinâmica
estabelece que a entropia de um sistema isolado não diminui
com o tempo. Ela só pode permanecer constante ou aumentar
com o tempo.
Pelo estudo
da Mecânica Estatística, entretanto, percebemos que
o que ocorre é que a probabilidade de redução
de entropia em um sistema isolado é extremamente próxima
de zero. O valor exato desta probabilidade depende das características
intrínsecas e do estado do sistema.
Mesmo assim,
tal probabilidade costuma ser tão baixa que podemos considerá-la
como sendo da ordem do impossível para a maioria dos casos
práticos (senão todos), mesmo se esperarmos para que
o improvável aconteça.